Arte

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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A arte no Egito

O Egito desenvolveu uma das principais civilizações da Antiguidade e nos deixou uma produção cultural riquíssima. Temos informações detalhadas sobre essa cultura graças a sua escrita bem estruturada.
O aspecto cultural mais significativo do Egito Antigo era a religião, que tudo orientava. Acreditava-se em vários deuses e na vida após a morte, mais importante que a vida terrena. A felicidade e a garantia da vida depois da morte dependiam dos rituais religiosos. A arte como não poderia deixar de ser, refletia essa visão religiosa, que aparece representada em túmulos, esculturas, vasos e outros objetos deixados junto aos mortos.

A arquitetura

Como consequência da intensa religiosidade, a arquitetura egípcia apresenta grandiosas construções mortuárias, que abrigavam os restos mortais dos faraós, além de belos templos dedicados às divindades. São exemplos dessas construções as pirâmides de Gizé, erguidas durante o Antigo Império.
As pirâmides são obras arquitetônicas mais conhecidas até hoje, mas foi no novo Império que o Egito viveu o auge de seu poder e de sua cultura. Os faraós desse período ergueram grandes construções, como templos de Carnac e Luxor, dedicados ao Deus Amon.
Durante o reinado de Ramsés II, no século XIII a. C. a principal preocupação do Egito era a expansão de seu poder político. Toda a arte desse período era usada como forma de demonstrar poder.

A pintura

Os pintores egípcios estabeleceram várias regras que foram seguidas durante muito tempo, ao longo do Antigo Império. Entre elas, a regra do frontalidade chama atenção pela frequência com que aparece nas obras.
Aspectos técnicos como perspectiva, proporção entre as figuras e o ponto de vista do autor da obra ainda não preocupavam os pintores egípcios. Tudo era mostrado como se estivesse de frente para o observador.
A rigidez dessas regras só seria quebrada no reinado de Amenófis IV, no Novo Império. Ele transferiu a capital de Tebas para Amarna e, pois um fim a região politeísta, impondo ao povo uma religião monoteísta, cujo único deus era Aton, o deu do sol, e adotando o nome de Akhnaton em homenagem a ele.
Akhnaton encomendou pinturas e relevos em que ele, o faraó, não era visto em posturas solenes e austeras como seus antecessores.
Após a morte de Akhnaton, a tendência para a informalidade nas representações artísticas perdurou em algumas obras do início do reinado de Tutancâmon, seu filho e sucessor.
Quando Tebas voltou a ser a capital do Egito e o politeísmo foi restaurado, muitos artistas voltaram a representar os governantes em posturas formais.

A escultura

A escultura é a mais bela manifestação da arte egípcia no Antigo Império. Apesar das muitas regras existentes para esse tipo de arte, os escultores criaram esculturas bastante expressivas. Os egípcios acreditavam que, além de preservar o corpo dos mortos com a mumificação, era importante encomendar a um artista uma escultura que reproduzisse seus traços físicos. Essa concepção da escultura não era aplicada apenas às obras que representavam os mortos. Para os egípcios, todas as esculturas deveriam revelar as características do retratado, como a fisionomia, os traços raciais e a condição social.

(PROENÇA, Graça. Descobrindo a história da Arte. São Paulo: Ática, 2005.)


Para nós, esses relevos e pinturas murais fornecem um quadro extraordinariamente vigoroso da vida no Egito há milhares de anos. E, no entanto, olhando-os pela primeira vez, é muito provável que os achemos bastante insólitos e nos causem uma certa perplexidade. A razão é que os pintores egípcios tinham um modo de representar a vida real muito diferente do nosso. Talvez isso se relacione com a finalidade diferente que tinha de ser servida por suas pinturas. O que mais importava não era a boniteza, mas a inteireza. A tarefa do artista consistia em preservar tudo o mais clara e permanentemente possível. Assim, não se propuseram bosquejar a natureza tal como se lhes apresentava sob qualquer ângulo fortuito. Eles desenhavam de memória, de acordo com regras estritas que asseguravam que tudo o que tinha de entrar no quadro se destacaria com perfeita clareza.


Figura 1 - Tanque pintado sobre túmulo em Tebas. 1400 a.C.


O método do artista, de fato, assemelhava-se mais ao do cartógrafo do que ao do pintor. A fig. 1 demonstra-o num exemplo simples, representando um jardim com um tanque. Se tivéssemos que desenhar tal motivo, ponderaríamos primeiro sob que ângulo o focalizar. A forma e as características das árvores somente poderiam ser vistas dos lados, a forma do tanque somente seria visível se fosse vista de cima. Os egípcios não tinham tais escrúpulos ao abordar o problema. Desenhavam simplesmente o tanque como se fosse visto de cima e as árvores de lado. Os peixes e pássaros no lago, por outra parte, dificilmente seriam reconhecíveis se vistos de cima, de modo que foram desenhados de perfil. Numa cena tão simples, podemos facilmente entender o procedimento do artista. Um método semelhante é usado com frequência pelas crianças. Mas os egípcios eram muito mais consistentes em sua aplicação desses métodos do que as crianças jamais o foram. Tudo tinha que ser representado desde o seu ângulo mais característico.

Figura 2 - Retrato de Hesire de uma porta esculpida em seu túmulo. 2700 a. C,

A fig. 2 mostra o efeito que essa ideia teve na representação do corpo humano. A cabeça era mais facilmente vista de perfil, de modo que eles a desenharam lateralmente. Mas, se pensamos no olho humano, é como se fosse visto de frente que usualmente o consideramos. Portanto, um olho de frente era plantado na vista lateral da face. A metade superior do corpo, os ombros e o tronco, são melhor vistos de frente, pois desse modo vemos como os braços estão ligados ao corpo. Mas braços e pernas em movimento vêem-se muito mais claramente de lado. Essa é a razão pela qual os egípcios, nessas imagens, nos parecem tão estranhamente planos e contorcidos. Além disso, os artistas egípcios achavam difícil visualizar um pé ou outro visto de um plano exterior. Preferiam o contorno claro desde o dedão para cima. Portanto, ambos os pés são vistos de dentro e o homem no relevo parece ter dois pés esquerdos. Não se deve supor que os artistas egípcios pensavam que os seres humanos tinham essa aparência. Seguiam meramente uma regra que lhes permitia incluir tudo o que consideravam importante na forma humana. Talvez essa rigorosa adesão à regra tivesse algo a ver com a finalidade mágica da representação pictórica. Pois como poderia um homem com seu braço "posto em perspectiva" ou "cortado" levar ou receber as oferendas requeridas ao morto?
É uma das maiores façanhas da arte egípcia que todas as estátuas, pinturas e formas arquitetônicas parecem encaixar-se nos lugares certos, como se obedecessem a uma só lei. A tal lei, à qual todas as criações de um povo parecem obedecer, chamamos um "estilo". É difícil explicar com palavras o que produz um estilo, mas é muito menos difícil vê-lo. As regras que governam toda a arte egípcia conferem a cada obra individual o efeito de equilíbrio, estabilidade e austera harmonia.

O estilo egípcio englobou uma série de leis muito rigorosas, que todo artista tinha que aprender desde muito jovem. As estátuas sentadas tinham  que ter as mãos sobre os joelhos; os homens tinham que ser pintados com a pele mais escura do que as mulheres; a aparência de cada deus egípcio era rigorosamente estabelecida: Horo, o deus-sol, tinha que ser apresentado como um falcão ou com uma cabeça de falcão; Anúbis, o deus da morte, como um chacal ou com uma cabeça de chacal. Todo artista tinha que aprender também a arte da bela escrita. Tinha que recortar na pedra, de um modo claro e preciso, as imagens e os símbolos dos hieróglifos. Mas, assim que dominasse todas essas regras, dava-se por encerrada a sua aprendizagem. Ninguém queria coisas diferentes, ninguém lhe pedia que fosse "original". Pelo contrário, era provavelmente considerado o melhor artista aquele que  pudesse fazer suas estátuas o mais parecidas com os monumentos admirados do passado. Por isso aconteceu que. no transcurso de três mil anos ou mais, a arte egípcia mudou muito pouco. Tudo o que era considerado bom e belo na era das pirâmides era tido como igualmente excelente mil anos depois. É certo que surgiram novas modas e novos temas foram pedidos aos artistas, mas o modo de representarem o homem e a natureza permaneceu essencialmente o mesmo. Somente um homem abalou as barras de ferro do estilo egípcio. Foi ele um rei da 18ª dinastia, no período conhecido como o "Novo Reino" (ou Império), o qual foi fundado após uma catastrófica invasão do Egito. Esse rei, chamado Amenófis IV, era um herético. Rompeu com muitos costumes aureolados pela antiga tradição. Não desejava render homenagem aos incontáveis deuses de estranhas formas cio seu povo. Para ele, somente um deus era supremo, Aton, de quem era devoto e a quem fez representar na forma do Sol. Intitulou-se a si mesmo Akhnaton, segundo o nome do seu deus, e instalou sua corte longe do alcance dos sacerdotes dos outros deuses, numa localidade que hoje se chama El-Amarna.

GOMBRICH, E.H. A História da Arte (Terceira edição). Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.

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